Conteúdo

STJ comemora aniversário com renovação

9 MIN. DE LEITURA

Nefi-Cordeiro Dois mil e quatorze ficará marcado na história do Superior Tribunal de Justiça (STJ). A Corte comemorará 25 anos de existência no próximo dia 7 de abril e, de presente, passará por uma importante renovação. É que desde o fim de 2013, novos ministros têm sido designados para compor o Tribunal da Cidadania. O mais recente nome foi aprovado pelo Plenário do Senado no dia 18 de março. Trata-se de Nefi Cordeiro, então desembargador do Tribunal Regional Federal da 4a Região (TRF-4).

Nefi Cordeiro foi indicado pela presidente Dilma Rousseff para ocupar a vaga deixada pelo ministro Castro Meira, aposentado compulsoriamente em setembro do ano passado. Ele chega ao STJ para se reunir aos ministros Moura Ribeiro, Regina Helena e Rogério Schietti, recentemente empossados. A renovação da Corte, entretanto, não deve parar por aí. Estão previstas ainda a escolha de novos ministros para substituir Ari Pargendler, Gilson Dipp, Sidnei Beneti e Arnaldo Esteves Lima, que deverão deixar o Tribunal ainda este ano.

A escolha de seu nome foi fundamentada em um sólido currículo. Natural do Paraná, ele é bacharel pela Faculdade de Direito de Curitiba e engenheiro civil formado pela Pontifícia Universidade do Paraná. Mestre em Direito Público, é também doutor em Direito das Relações Sociais pela Universidade Federal daquele estado. Antes de ingressar na magistratura, atuou como promotor de Justiça em Araucária, também no Paraná, entre 1989 e 1990, ano em que ingressou na magistratura federal. Entre 1996 e 1999, foi vice-diretor do Foro da Seção Judiciária do Paraná.

Antes da confirmação do Plenário do Senado para compor o STJ, Nefi Cordeiro passou por uma intensa sabatina na Comissão de Constituição e Justiça daquela Casa. A senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR), relatora da indicação, destacou o conhecimento jurídico demonstrado pelo desembargador, principalmente na área criminal e nas questões ligadas ao tráfico de drogas. “No momento em que a sociedade brasileira se confronta com um problema tão grave como esse, ter uma pessoa com a experiência dele no STJ é muito importante”, destacou a senadora, ressaltando ainda as possibilidades de contribuição de Nefi ao Legislativo e ao Executivo no enfrentamento do problema.

Na sabatina, questionado sobre o sistema prisional, Nefi Cordeiro foi categórico e disse aos senadores que o cárcere no Brasil é uma de suas principais mazelas sociais. De acordo com ele, o sistema prisional do país, com prisões degradantes e superlotadas, é realmente um drama que precisa ser pensado e solucionado. “A cada condenação em que se envia alguém à prisão, o juiz sabe que aquela pessoa passa a ter como a menor das penas a privação da liberdade, que na verdade deveria ser a única pena”, disse o futuro ministro.

Na avaliação dele, a sociedade precisa pensar em alternativas para sanar os problemas do cárcere. “A preocupação de qualquer magistrado é que tenhamos processos com soluções eficientes. Ou seja, que se puna quem pratica crimes, sem, no entanto, violar suas garantias fundamentais. E é nesse confronto, de buscar a eficiência sem abrir mão das garantias individuais, que caminha a jurisprudência, que caminham os juízes do Brasil”, destacou.

Nesse sentido, Nefi resaltou que uma das missões dos magistrados deve ser a de tentar dar uma solução eficiente para as demandas judiciais, de forma a promover a punição dos criminosos sem que isso incorra na violação dos direitos destes. “É nesse confronto de buscar a eficiência, sem abrir mão das garantias individuais dos acusados, que caminha e sempre deve caminhar nossa jurisprudência”, ressaltou.

O futuro ministro abordou também o envolvimento de adolescentes em atos infracionais. O tema foi abordado pelos senadores, que questionaram a Nefi Cordeiro se ele era favorável à redução da maioridade penal. Ele disse não considerar a proposta como a solução para conter o problema.

Questionado sobre o tráfico de drogas, ele enfatizou que o crime precisa ser combatido com rigor. Entretanto, acrescentou que os usuários precisam ser tratados adequadamente para que possam sair do vício e não entrar na cadeia criminosa da traficância.

Sobre a internação compulsória de dependentes de drogas, ele se disse favorável à medida, desde que comprovado o risco para o próprio usuário ou para terceiros. “Embora se trate de uma questão pessoal, se o vício traz risco para o dependente ou para terceiros, a internação é um caminho que me parece recomendável”, afirmou.

Gestão do Judiciário
Na sabatina, Nefi Cordeiro também foi questionado sobre os problemas do Poder Judiciário, dentre os quais a morosidade na tramitação dos processos. Dados do relatório Justiça em Números, referentes a 2012, divulgados pelo Conselho Nacional de Justiça no ano passado, apontaram que esse é um dos principais males do Poder Judiciário. Naquele ano, cerca de 90% dos 92,2 milhões de processos judiciais em tramitação encontravam-se na primeira instância. A taxa de congestionamento registrada chegou a 72% e somente 28% das ações foram de fato concluídas em 2012.

Na sabatina, a senadora Gleise indagou ao futuro ministro sobre as soluções possíveis para sanar esses e outros problemas do Poder Judiciário, e ele destacou a importância da mediação como meio de resolução de conflitos. Segundo afirmou, o Judiciário é percebido pela população como “garantidor das promessas” e “última esperança”. Na avaliação do novo ministro, fortalecer diferentes formas de mediação, para privilegiar a participação da sociedade e reduzir as demandas ao Judiciário, é uma necessidade.

Nefi Cordeiro contou que passou a utilizar a mediação ao longo de sua caminhada de 20 anos na área criminal. Na avaliação do ministro, essa é a grande solução para o Poder Judiciário. “A busca de soluções para os conflitos [pode ser usada] antes do ingresso no Judiciário, durante o processo em tramitação e, porque não, mesmo após sentença condenatória nos tribunais. Todas as medidas que servem para empoderar as partes, ou seja, devolver à sociedade o poder de decidir os seus conflitos, são úteis, porque ajudam na construção da melhor Justiça. É que a justiça feita pela própria parte é mais aceita e representa um importante caminho para uma Justiça melhor e mais justa”, disse.

Durante a sabatina, Nefi ressaltou tam­bém a importância da gestão como ferramenta de modernização no Poder Judiciário. Salientou que não basta aumentar o número de juízes, servidores ou varas para se buscar uma Justiça melhor. “Esse é um caminho, mas a gestão é sempre fundamental. É preciso que juízes e tribunais saibam gerir seus recursos, processos e tarefas, para que tenhamos uma Justiça mais qualificada e mais célere”, afirmou.

Questões polêmicas
A sabatina durou quase duas horas e Nefi Cordeiro respondeu a questionamentos sobre os mais variados assuntos. Foram temas atuais e polêmicos, como redução da idade penal, novos tribunais, drogas, a situação dos nossos presídios e o que fazer para termos uma Justiça melhor.

Uma das questões tratadas foi sobre as manifestações populares, crescentes no país e que poderão aumentar na ocasião da Copa do Mundo. O novo ministro disse que a criação de novas leis para punir os crimes ocorridos durante manifestações exige prudência dos legisladores. De acordo com ele, é preciso buscar criminalizar apenas condutas que representem risco ou dano social, e não a manifestação de opinião.

Nefi Cordeiro não deixou nenhuma pergunta sem resposta. Para ele, o encontro com os senadores foi um momento especial, por meio do qual a República pôde participar do processo de nomeação de um novo ministro para o Tribunal da Cidadania. “É uma fase importantíssima, em que o indicado se expõe aos parlamentares nas suas ideias, na sua compreensão do Direito, para que seja verificado se ele pode, realmente, desempenhar a relevante função de ministro de um tribunal superior”, destacou.

Essa é a terceira vez que Nefi Cordeiro é indicado para uma vaga de ministro do Superior Tribunal de Justiça. “Tive a felicidade de ser indicado três vezes pelos ministros do STJ, sempre em primeiro escrutínio. Foi um tratamento de reconhecimento que não tenho como agradecer. Agora, tive a felicidade de ser indicado pela Presidência da República”, ressaltou.

O ministro conta que o processo de indicação, apesar de cansativo, também foi muito positivo e o ajudará no exercício do seu cargo na Corte superior. “O processo de indicação para um tribunal superior envolve a busca de contatos e de apoios. No início é realmente desgastante, mas acaba possibilitando ao candidato conhecer muitas pessoas e assim receber sugestões que mostram realmente a preocupação de todos para que o Brasil melhore no sentido de qualificar os quadros da Justiça”, destacou.

E finalizou: “Neste processo eu tive apoios que realmente me sensibilizaram e me honraram. E retribuirei esses apoios com o melhor trabalho que eu puder fazer. Meu agradecimento será pelo trabalho e pela dedicação ao Superior Tribunal de Justiça”.

Currículo qualificado
Relatora da indicação do desembargador na CCJ, a senadora Gleisi Hoffmann ressaltou a capacidade, a competência, a experiência e o preparo de Nefi Cordeiro para ocupar uma cadeira no Superior Tribunal de Justiça. “Com certeza o STJ se abrilhantará com a presença de um magistrado tão qualificado em seu quadro de ministros”, afirmou a parlamentar. Em seu voto, ela lembrou a carreira de professor universitário e a produção acadêmica do desembargador como dignas de destaque.

No relatório, a senadora afirmou que o currículo do indicado é “rico” e definiu sua experiência como “profícua”. A sabatina foi acompanhada pelos ministros do STJ Herman Benjamin, Napoleão Nunes Maia Filho, Marco Aurélio Bellizze, Antonio Carlos Ferreira, Sérgio Kukina e Villas Bôas Cueva. A indicação de Nefi Cordeiro, de 50 anos, foi aprovada por 24 votos, sendo nenhum contrário.

Atualmente, o Estado do Paraná é representado por dois outros ministros no STJ. Um deles é o próprio presidente do Tribunal, Félix Fischer. Nascido na Alemanha, naturalizado brasileiro e “paranaense de coração”, Fischer atuou por 23 anos no Ministério Público do Paraná e está no STJ desde 1988. Eleito em 2012, o ministro Sérgio Luiz Kukina, de 52 anos, assumiu a vaga no lugar do ministro Hamilton Carvalhido.

O STJ é composto por 33 ministros. Um terço deles é de magistrados oriundos dos tribunais regionais federais. O outro terço é de desembargadores dos tribunais de Justiça, enquanto o último terço, em partes iguais e alternadamente, é destinado a advogados e membros do Ministério Público Federal, estadual e do Distrito Federal.

Edição
Edição 163
– março 2014

Categorias

Sem categoria
Sobre o autor
Da Redação, por Giselle Souza
Relacionados
Do mesmo autor
Sem categoria
Da Redação, por Giselle Souza
Sem categoria
Da Redação, por Giselle Souza
Sem categoria
Da Redação, por Giselle Souza