Conteúdo

Pelo Acolhimento sem traumas_Entrevista com Claudia Vidgal

8 MIN. DE LEITURA

Mais de 30 mil crianças e adolescentes vivem atualmente em abrigos no Brasil, segundo dados do Conselho Nacional de Justiça. Prestar atendimento de qualidade, que possa de fato minimizar o sofrimento de quem já sofreu por demais com o abandono ou descaso de suas famílias, é o objetivo do Instituto Fazendo História – criado em 2005, para fornecer apoio aos serviços de acolhimento. Claudia Vidigal, presidente da entidade, explica à Revista Justiça & Cidadania como esse trabalho é realizado.
O instituto tem como carro-chefe quatro principais projetos: “Fazendo minha história”, que visa a propiciar meios de expressão para que cada criança ou adolescente entre em contato e registre sua história de vida, utilizando a literatura infantil como mediadora desse processo; “Perspectivas”, que oferece formação a educadores e técnicos; “Palavra de bebê”, que tem como objetivo o fortalecimento da qualidade do acolhimento na primeira infância; e “Com tato”, que oferece atendimento psicológico gratuito a crianças e adolescentes abrigados.


Segundo a especialista, as condições do acolhimento ainda não são as ideais, mas o Brasil tem caminhado a passos largos no que diz respeito ao atendimento oferecido. “Estamos muito melhores do que há dez anos. Estamos evoluindo”, afirmou Claudia. Nesse sentido, ela destacou a aprovação da Lei 12.010, de 2009. “Uma questão importante é a responsabilidade do trabalho com as famílias, no sentido de a reintegração ser, claramente, dos serviços de acolhimento, a partir da nova lei. Ou seja: quando uma criança ou adolescente é acolhido, o serviço de acolhimento inicia, imediatamente, a construção de um plano individual de atendimento, para garantir a convivência familiar e comunitária”, disse.
Confira a entrevista:
Revista Justiça & Cidadania – Como, quando e por que o Instituto Fazendo História foi criado?
Claudia Vidigal – O Instituto foi fundado em 2005, para apoiar os serviços de acolhimento no desafio de lidar com as histórias de vida dentro dos serviços de acolhimento. A ideia foi criar estratégias para espaços de expressão das crianças, dos adolescentes e dos profissionais que trabalham nesses serviços de alta complexidade.
JC- Quais são as ações desenvolvidas pela entidade?
CV – Temos quatro programas principais e diversos projetos pontuais, todos relacionados aos serviços de acolhimento. Os programas são: “Fazendo minha história”, que visa a propiciar meios de expressão para que cada criança ou adolescente entre em contato e registre sua história de vida, utilizando a literatura infantil como mediadora desse processo. A ideia é que eles sejam cada vez mais os protagonistas de suas histórias. Depois de um ano de trabalho, o resultado  é um álbum com fotos, depoimentos, relatos e diversas produções que representem a história de vida de cada um. Destaca-se, também, o “Perspectivas”, que oferece formação a educadores e técnicos visando à profissionalização das instituições de acolhimento. Atua junto às equipes por meio de oficinas temáticas e supervisões institucionais.
Há também o programa “Palavra de bebê”, que tem como objetivo o fortalecimento da qualidade do acolhimento de bebês por meio de ateliês de sensibilização, com música, brincadeiras e massagem, assim como a formação de educadores. Trata-se de um olhar específico, em acolhimento, à primeira infância,  justamente por considerarmos este um período muito importante na formação da identidade de cada pessoa. Por último, destaco o programa “Com tato”, que oferece atendimento psicológico gratuito a crianças e adolescentes que moram em instituições de acolhimento. Os psicoterapeutas que atuam nesse programa são voluntários e contam com supervisões semanais de profissionais também voluntários.
No que diz respeito aos projetos pontuais, destaco o que visa a apoiar os adolescentes no momento do desabrigamento, o “nÓs”. Há, ainda, o projeto de formação em arte-educação e a publicações de livros temáticos sobre a acolhimento.
JC – Quem é atendido pelo Instituto? Quantas pessoas já foram beneficiadas?
CV – Educadores, 785 por ano, em média. Crianças e adolescentes, cerca de 1.000 por ano. Bebês, cerca de 50 por ano.
JC – Segundo dados do Conselho Nacional de Justiça, mais de 30 mil crianças estão em abrigos. Muitas estão nesses locais por falta de condições dos pais em mantê-las. Como a senhora vê essa questão dos abrigos no Brasil? Na sua avaliação, o que poderia ser feito para reduzir o tempo de abrigamento das crianças?
CV – A partir da Lei 12.010, de 2009, o Conselho Nacional de Justiça demonstrou grande interesse e proatividade em contribuir com a questão das crianças e adolescentes em acolhimento institucional. É importantíssimo o movimento realizado pelo CNJ no sentido de garantir que a lei seja aplicada, ao solicitar aos juízes informações precisas sobre a situação das crianças e adolescentes em acolhimento, na perspectiva de garantir que não fiquem esquecidos nas instituições. No ano passado, foram iniciadas audiências concentradas, que garantiram e estão garantindo o desabrigamento de muitas crianças e adolescentes que não precisariam dessa medida, e sim de outros programas de apoio e suporte.
Temos hoje, no Brasil, um excelente respaldo legal e, agora, um olhar atento para que a lei seja cumprida. Penso que estamos no caminho certo, sou bastante otimista quanto a esse tema. Estamos muito melhores do que há dez anos. Estamos evoluindo.
Outra questão importante é a responsabilidade do trabalho com as famílias, no sentido de a reintegração ser, claramente, dos serviços de acolhimento, a partir da nova lei. Ou seja: quando uma criança ou adolescente é acolhido, o serviço de acolhimento inicia, imediatamente, a construção de um plano individual de atendimento (PIA), para garantir a convivência familiar e comunitária. Na maior parte dos casos, esse plano prevê um maior conhecimento da família, encaminhamentos e suporte para que a mesma, caso seja possível, volte a ser responsável pelos filhos. Essa clareza de papéis, juntamente com uma política pública que coloca a família no centro das ações, traz muito mais chances de crianças e adolescentes voltarem para suas famílias de origem. Muitos casos de acolhimento prolongado têm também a ver com pais usuários de drogas e álcool. Neste sentido, precisamos do apoio da Secretaria da Saúde para que esses pais possam se tratar e receber seus filhos de volta.
As estratégias para o acolhimento menos prolongado me parecem essas; precisamos fortalecê-las. Permanece, ainda, a questão dos adolescentes já destituídos, disponíveis para adoção, e que raramente são adotados. Aí, temos que pensar em alternativas para que os que ficam de fato mais tempo no abrigo possam ter direito à convivência familiar. Programas de apadrinhamento afetivo são um bom caminho, e podem ser implantados em todo o Brasil. Crianças e adolescentes são apadrinhados por uma família que se dispõe a acompanhá-lo, a convidá-lo para finais de semana juntos, férias, festividades etc. Trata-se de uma alternativa importante a ser ampliada com cuidado e qualidade.
O estado de Mato Grosso tem uma ampla experiência nesse particular, uma vez que o Projeto Padrinho já existe há mais de dez anos, e é um bom modelo.
JC – Com relação às crianças já destituídas do poder familiar, também segundo dados do CNJ, quase cinco mil estariam disponíveis para adoção. O número de pretendentes à adoção, no entanto, é bem maior, chega quase a 27 mil. Em sua opinião a que se deve esta disparidade? O que falta para essas crianças serem inseridas em uma nova família?
CV – A grande maioria dos pretendentes à adoção busca bebês. Muitas vezes, apenas uma criança. Temos muitas crianças maiores e grupos de irmãos, que não devem ser separados. Parte da disparidade tem a ver com essa diferença entre o perfil de acolhidos e o perfil desejado pelos pretendentes. Isso pode, sim, ser mudado com campanhas e processos de sensibilização para as adoções necessárias (tardias, de grupos de irmãos ou de crianças com necessidades especiais). Isso vem sendo feito em todo o País, o que tem gerado excelentes resultados. Por exemplo, a cor da pele já foi um critério muito mais forte (a grande maioria dos casais só queria um bebê branco) e hoje, é bem menos frequente. Um avanço. O estado de Santa Catarina acaba de lançar uma forte campanha nesse sentido, e acredita-se que bons resultados sejam alcançados. Por fim, a demora também pode ter a ver com a morosidade dos processos. Mas, com o CNJ participando ativamente desse processo, os abrigos tendo como foco o desabrigamento e o trabalho em rede com as varas da Infância e Juventude, a tendência é que essa morosidade diminua.
JC – Que outro projeto do instituto a senhora poderia destacar?
CV – O projeto “nÓs”, destinado aos adolescentes que deixam o abrigo pela maioridade, é para nós um grande desafio técnico. Estamos mergulhados nessa estratégia de forma a ampliar o conhecimento e os caminhos para dar a esses jovens o direito à convivência familiar e comunitária.

JC – O atendimento é feito por voluntários? Existe algum projeto para a capacitação dos profissionais que atuam nesse setor?
CV – O “Com tato” e o “Palavra de bebê” são realizados por meio da mobilização de um voluntariado técnico da área da psicologia. O “Fazendo minha história” conta com um voluntariado não técnico, mas muito comprometido.

 

Edição
Edição 135
– novembro 2011
Categorias
Sem categoria
Sobre o autor
Da Redação, por Giselle Souza
Relacionados
Do mesmo autor
Sem categoria
Da Redação, por Giselle Souza
Sem categoria
Da Redação, por Giselle Souza
Sem categoria
Da Redação, por Giselle Souza