Nascido em Lípsia (Leipzig) em 1
o. de julho de 1646, de família originária da Saxônia, Gottfried Wilhelm Leibniz era filho de Friedrich Leibnütz, professor de Filosofia da universidade local (assim como seu avô) e de Catharina Schmuck (nome de solteira), filha de um conhecido advogado. Aos seis anos tornou-se órfão de pai e aos vinte mudou grafia do nome da família de Leibnütz para Leibniz – por ser uma família de antiga origem eslava, o nome originário era Lubenicz.
Desde os primeiros estudos manifestou sua tendência autodidata, demonstrando prematura capacidade para compreender textos latinos e gregos, e tal condição levou o docente de sua escola (a
Nikolaischule) a propor a sua mãe a proibição do acesso à biblioteca de seu pai a fim de impedir a leitura de livros que não se adequavam a sua idade. Pela intervenção de um amigo de família, presente no momento de recomendação proibitiva de utilização dos livros paternos, sua mãe lhe consentiu tal acesso. O jovem Leibniz lia obssessivamente, seguindo sua linha de pensamento até onde a imaginação o conduzia, até que o chão da biblioteca e todas as mesas e cadeiras estivessem cobertos com livros abertos.
Muito cedo revelou capacidade de conhecimento do mundo teórico e grande parte de suas indagações originavam-se de formulações prematuramente concebidas. Se isso já era uma extraordinária manifestação, tais circunstâncias somente se agruparam a sua vida ativa e diversificada. Leibiz foi matemático, jurista, historiador, diplomata, filósofo e lógico, conquanto tenha se lançado numa faculdade de direito e se doutorado em outra. É digno de nota que a universidade em que seu pai e avô lecionaram e onde se formou (Leipzig) refutou sua tese de doutorado, dada a falta de conteúdo ou justificativa jurídica, levando-o a titular-se pela Universidade de Altdorf, desta vez com um tema estritamente jurídico. Sua admissão na Universidade de Leipzig se deu quando tinha 14 anos e lá se deparou, pela primeira vez, com texto de tão ilustres como Galileu, Descartes e Hobbes, que revolucionaram o pensamento científico, filosófico e político.
Sua personalidade genial o conduziu a uma vida incomum: criou muitas academias, especialmente a de Berlim e viajou por toda a Europa freqüentando cortes. Foi Rosa-Cruz. No meio de tantos afazeres, dedicava-se à meditação noturna e seus escritos eram breves. Buscou conciliar e sintetizar a filosofia escolástica com a moderna. Se, por um lado, escapou do dualismo cartesiano e do monismo
spinoziano, por outro, através de sua teoria nas mônadas, desenvolveu uma metafísica de caráter apriorístico.
Seu trabalho pode ser estruturado desta forma:
– retomada da filosofia aristotélico-tomista: necessidade de resgatar os conceitos de substância e finalidade.
– refutação do mecanicismo: descobre um erro de física em Descartes (não é a quantidade de movimento que permanece constante mas a energia cinética) e sustenta que a essência dos corpos não é a extensão ou o movimento (que seriam apenas determinações extrínsecas da realidade) mas uma “força” intrínseca da qual derivam os fenômenos físicos: a mônada.
– captação dos reducionismos: redução da realidade a algum de seus aspectos, o que é verdadeiro, mas não engloba toda a realidade.
– espaço seria a ordem das coisas que coexistem no mesmo tempo (é uma relação e não uma substância).
– tempo – seria a sucessão das coisas.
– monadologia: mônadas seriam substâncias simples (imateriais) que teriam em si sua própria determinação, perfeição essencial e finalidade interior (centros de força que comporiam a realidade, sós ou agregados).
– percepção – representação (somente certas mônadas teriam apercepção, que é uma percepção consciente);
– atividades
– apetição – mutação
– da identidade dos indiscerníveis – não existem duas substâncias iguais (distinção pela percepção);
– princípios
– da continuidade – a natureza nunca realiza saltos (na série das coisas criadas, toda a posição possível é ocupada, e isto uma e somente uma vez).
– harmonia preestabelecida: cada mônada seria um mundo fechado em si mesmo (multiplicidade na unidade; microcosmo representando todo o universo; “espelho vive perpétuo do universo”), sem agir ou sofrer ação de outra (sem “janelas” para o exterior).
– número – as mônadas não aumentam nem diminuem em quantidade, tendo sido criadas por Deus e não sendo destrutíveis.
– corpos – são agregados de mônadas unificadas por uma mônada superior que é a alma (mineral, vegetal, animal ou espiritual): vitalismo global.
– Teodicéia – Deus seria o ser necessário (argumento ontológico):
– essências – tudo o que é pensável sem contradição (possível);
– verdades de razão – cujo oposto é impossível (estão na mente de Deus);
– verdades de fato – acontecimentos contingentes, cujo oposto não é impossível (têm a razão suficiente para existir – dentre as várias possibilidades de mundo, Deus escolheu o melhor mundo possível);
– metafísico – fissitude – mal
– moral – pecado
– físico – pena pelo pecado (meio adequado ao fim).
– Teoria do conhecimento – a alma seria inata a si mesma: as noções de ser, uno, causa, não poderiam ser fornecidas pelos sentidos.
– Liberdade – teria por condições e inteligência, a espontaneidade (não coação) e a contigência (ser possível ao conteúdo). No entanto, a monadologia acaba implicando sua negação, ao estabelecer a prefixação
ab aeterno dos acontecimentos por Deus.
Aproximado e reconhecido pelo poder vigente tanto na Alemanha balcanizada quanto fora dela, teve especial participação. Bem-sucedido na empreitada de atribuir o trono da Inglaterra àquele a que estava ligado, o Duque de Hannover, deixou de acompanhá-lo como novo rei Jorge I da Inglaterra por causa da polêmica em torno do cálculo infinitesimal com Newton, pranteado cientista local, pelas conseqüências funestas que a associação com Leibniz poderia gerar, não obstante terem Leibniz e Newton certa cordialidade na comunicação. A outros cientistas é que coube a base das acusações contra Leibniz em torno do suposto plágio à obra de Newton – que se calou, no entanto, mesmo tendo sido igualmente vítima da acusação de plágio por Robert Hooke acerca de sua posição sobre os movimentos planetários.
Registre-se que o termo mônada aparece, ao que tudo indica, pela primeira vez numa carta a Michelangelo Fardella de 1696, sendo certo que primeiro, com linguagem aristotélica, Leibniz dá a esse algo o nome de “enteléquia” e só depois denomina-se “mônada”. No universo leibniziano unitário, a mônada é apresentada como unidade que serve de base ao múltiplo-composto, ou: “é necessário que existam substâncias simples para que existam os compostos; de fato, o composto não é outra coisa senão um amontoado ou agregado simples.
Como erudito universal, Leibniz fez variadas pesquisas nos campos da matemática, da física, da lingüística e da filosofia. Frederico, o Grande, disse a seu respeito: “ele por si só representa toda uma academia”. De seus trabalhos mais importantes no campo da matemática, sem dúvida é a descoberta do cálculo diferencial. Leibniz desenvolveu o sistema aritmético binário (díade), que funciona só com dois signos (0 e 1), como também pensou numa máquina calculadora que, ao contrário das máquinas de adicionar até então existentes (desenvolvida, entre outros, por Blaise Pascal), podia ser utilizada para multiplicar e dividir. É digno de nota que o referente 0 e 1 ou seja: e ou Deus, ou na oposição elementar entre luz e escuridão, que constitui o início da criação e já contém toda sua plenitude. Assim: “Nada exceto um em tudo” – em suas palavras.
Leibniz não só se manteve dentro de seu halo de genialidade como também de grandeza, eis que ciente da morte de Locke deixou de publicar sua resposta a seu “Ensaio sobre o entendimento humano” – a obra de Leibniz somente é publicada
post mortem. Leibniz ao final da vida manteve-se como diretor da Biblioteca Ducal de Hannover e sem o reconhecimento a que faria jus.
Malgrado a polêmica de Descartes e Pascal contra a lógica dos dialéticos e contra o vazio formalista da silogística; malgrado ainda a mesma lógica portorealista seja sobretudo uma “arte” de pensar e a ofuscar-se de rica tradição lógica medieval, o século XVII suspende uma tradição de estudos e a leva, antes com Hobbes e com Geulin e depois sobretudo com Leibniz, a um desenvolvimento particularmente significativo. Desenvolvimento que não se compreenderia apenas se se esquecesse os vários tratados, em sua maioria de cunho manualístico, que de lógica foram escritos, sobretudo na Alemanha:
1633 Opus logicum – Christian Sheibler (1589-1633);
1638 Logica hamburgensis – Joachim Jungius (1587-1655);
1654 Logica netus et nova – Johannes Clauberg (1622-1655);
1670 Erotemata logica – Jakob Thomasius (1622-1684) – Professor de Leibniz;
1678 Essai de logique – Edma Mariotte (1620-1680);
1686 Instituto logica – John Wallis.
Afirma-se, ordinariamente, que em um de seus primeiros escritos “
Ars combinatoria”, Leibniz apresentou o “problema da matematização da lógica”, isto é, a redução da lógica a uma espécie de álgebra do pensamento. Ele se mostra convencido da possibilidade de reduzir analiticamente todos os conceitos complexos a um pequeno número de conceitos primitivos, cada um denotando uma característica de signo. A esta primeira classe dos conceitos primitivos segue uma segunda classe, formada pela combinação – dois a dois destes signos e depois uma terceira, formada pela combinação mais complexa, e daí por diante. Uma vez terminada esta classificação, pela qual é necessária a atividade não de uma só pessoa mas de grupos de estudiosos, e uma vez fixada a “caracterização universal”, isto é, o conjunto de caracteres ou signos que denotam os conceitos e a relativa escritura ideográfica (chamada
lingua characteristica, na qual o alfabeto resultaria dos signos que denotam os conceitos simples), nos acharemos, a respeito de problemas lógicos, na mesma situação na qual nos achamos a respeito dos problemas algébricos, e de frente a uma questão qualquer; e, ao invés de se discutir o infinito, será finalmente possível dizer “calculamos” (
calculus ratiocinator).
Este método, pelo qual Leibniz é considerado o fundador da moderna lógica formal, isto é, da lógica matemática, é julgado por seus atos válidos, não só por verificar a verdade já conhecida, mas também por descobrir verdades novas. Com isso, Leibniz formulou a logicização da matemática e formulou ainda os seguintes princípios:
– o da identidade e da não-contradição e
– o da razão suficiente.
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