O que espera a Academia de seus Acadêmicos,
E o que cada acadêmico espera da sua academia.
A chamada ‘nova ordem mundial’ resulta de mudanças políticas, econômicas e sociais tão abruptas que grande parte da humanidade, mesmo bem informada, ainda não se deu conta de sua extensão e profundidade. Essa transformação não está concluída, mas já provocou significativas mudanças. Propiciou a falência do chamado ‘socialismo real’ e o desaparecimento do império soviético; promoveu o declínio das ideologias; gerou a crise do próprio Estado e de suas políticas do welfare state; impulsionou a revolução científico-tecnológica; ampliou a robótica e a consequente queda no nível de emprego; internacionalizou a economia; forçou as integrações regionais; enfraqueceu as organizações sindicais; reformulou as relações de trabalho na Nova Europa, na Ásia e na América Latina. No plano das ideias, a liberdade reconquistada na luta contra os belicismos e as ideologias expandiu-se rapidamente como valor político, econômico, social. A liberdade que havia sido soterrada em muitos países pelo estatismo autoritário voltou a reclamar seu espaço. Os novos institutos passaram a estar profundamente informados pelo valor liberdade, uma afirmação consequente da elevação do nível de consciência das sociedades. Os novos valores geraram novos conceitos. A revolução das comunicações produz a revolução do conhecimento, que deixa de ser luxo para tornar-se necessidade. No campo econômico, o conhecimento assume o nível de fator de produção, tanto ou mais importante que os fatores clássicos: capital, terra e trabalho. A revolução do conhecimento penetra e altera profundamente todas as instituições e torna obsoletas as que não consegue alterar. Penetra nos governos, pressionando-os a atender novas demandas. Penetra nos sindicatos, pressionando-os a atender novas reivindicações da classe dos trabalhadores. Penetra nos negócios, pressionando-os para serem mais rápidos e lucrativos. Penetra no trabalho, pressionando-o a coparticipar mais proximamente dos processos produtivos. Penetra no Direito, por fim, pressionando-o a dar respostas mais eficientes e mais rápidas aos conflitos de interesses, forçando-o a se livrar do conceitualismo hermético e do processualismo esclerosante. O Direito do Trabalho, expressão de uma complexa realidade socioeconômica, termina por ser um dos ramos jurídicos mais demandados. Dele se exige maior adaptabilidade do que dos demais. Mas nem sempre a resposta está à altura, pela extrema dependência de rígidas definições estatais. A transição para a sociedade do conhecimento levanta novas questões, novos problemas mexem com valores, princípios, instituições, afinidades e comportamento. Provoca e continuaráa provocar grandes resistências. No Brasil, as profundas transformações no âmbito externo teriam que repercutir, necessariamente, em diferentes planos da nossa realidade. No plano político, a afirmação da democracia neste final de século parece ter decretado o fim do ciclo perverso do autoritarismo versus populismo na vida brasileira. A prática democrática se estabilizou, embora falte muito ainda para se alcançar uma autêntica vivência democrática. No plano econômico, o esgotamento do modelo de desenvolvimento baseado na substituição das importações forçou a adaptação da economia fechada do País para um modelo de economia mais livre e de mercado. No plano social, o enfrentamento entre capital e trabalho está cedendo lugar à reconciliação e a uma fase de parceria entre os fatores de produção. Vivemos novos tempos, de mudança, de adaptação, de criatividade, de globalização e de crises. Daí decorre a necessidade imperiosa de repensar o papel das Academias, para adequá-las aos imperativos da modernidade. Nessa dialética entre o velho e o novo, entre o retrógrado e o progressismo, as Academias, como Instituição, não podem ficar contemplativas. Precisam ser parte, tomar parte e fazer parte. Tal tarefa não é fácil Os aspectos aqui identificados são facetas demasiadamente complexas e originais para permitir, a um só analista, avaliação precisa e formulação de propostas prontas e definitivas para a solução dos angustiantes problemas de nossos dias que, direta ou indiretamente, afetam o bom funcionamento e a sobrevivência da maioria das nossas Academias. Entendo, todavia, ser oportuno especular sobre o papel reservado às Academias, em geral, e aos acadêmicos, em particular, num contexto nacional e internacional surpreendentemente complexo e inovador. Alguém já disse, de forma apropriada, que ‘em nossos dias o mais importante patrimônio que se tem é o acúmulo de conhecimentos úteis e o uso inteligente que deles se faça’. Nesse contexto, à luz de uma visão moderna, o conhecimento histórico passa a adquirir nova dimensão e novo significado. Mede-se seu valor não tanto pelas elucubrações intelectuais e rigores da lógica, da gramática e da retórica, mas principalmente pelos resultados concretos alcançados fora da pessoa detentora do conhecimento, ou seja, na sociedade e no avanço do próprio conhecimento. Significa, portanto, capacidade para fazer algo instrumental, utilizado como recurso para influir e propiciar mudanças na sociedade. O conceito de conhecimento transmuda-se, assim, da mera condição de bem privado para assumir também a condição de bem público. Muda igualmente o conceito de pessoa instruída. Desta exige-se sentido maior de capacidade, universalidade, responsabilidade e qualificação para interpretar as grandes transformações e enfrentar os desafios de criatividade de um mundo cada vez mais diversificado e inovador. Sem desconsiderar a inegável importância institucional das Academias, sem deixar de reconhecer o muito que se fez ao longo de suas existências em prol da evolução em todos os ramos do saber, penso que o novo papel a elas reservado é o de tornar suas finalidades mais produtivas. Esse objetivo somente pode ser alcançado se os conhecimentos aferidos forem compartilhados e unificados. A erudição individual, não obstante sua importância, não produz em si mesma resultados globais. Somente pelo esforço integrado, trabalho permanente, metódico, sistemático e multidisciplinar poder-se-á transformar o inegável potencial individual de cada acadêmico em desempenho intelectual socialmente produtivo. Mas não basta sentir os anseios populares, identificar as demandas da sociedade, pensar sobre as melhores soluções e produzir excelentes obras técnicas, literárias e históricas. O importante é vê-las materializadas. O prestígio, o preparo, a capacidade e a credibilidade profissional e intelectual de cada um dos seus integrantes conferem às autênticas e ativas Academias a legitimidade de que necessitam para atuar e influir eficazmente no processo de transformação qualitativa da sociedade. O revigoramento das tradicionais e respeitadas Academias, ao meu sentir, está a exigir o atendimento a algumas premissas, dentre elas a crença no pluralismo das ideias; a existência de um sadio clima convivencial propício ao diálogo aberto e franco na busca do consenso; a capacidade de sentir a magnitude e a natureza perversa da problemática social que nos aflige; a racionalidade crítica infensa às abordagens tendenciosas, dogmáticas e disciplinarmente restritas e, principalmente, o convicto desejo por parte dos acadêmicos de oferecer, à consideração participativa da sociedade e dos poderes públicos, propostas alternativas, bem articuladas e factíveis, de que tanto necessitamos. Na busca da objetividade e do conhecimento compartilhado é chegado o momento de aproveitar, ainda mais, o notável saber e a experiência vivida pelos acadêmicos a fim de que, sem utopias e preconceitos, possam enfrentar o grande desafio, ou seja, a busca da síntese entre o coração, a razão e a ação e ajudar a reordenar o País para a modernidade. O desafio está posto Acredito na capacidade de sentir dos nossos acadêmicos e na sua maneira de vivenciar a perversa problemática social. Acredito na racionalidade de cada um, infensos à abordagem tendenciosa, dogmática, superficial, paroquial e disciplinarmente restrita. Acredito no civismo dos colegas acadêmicos de colocar suas inteligências a serviço das boas causas de São Paulo e do País. Acredito no pluralismo das ideias e na possibilidade de um diálogo interno democrático, fruto do consenso, arredio a qualquer outro imposto por autocracias ou por ideologias de plantão. Acredito na legitimidade dos nossos acadêmicos, enquanto interlocutores válidos e intérpretes da historiografia paulista e brasileira. Por fim, acredito que a Academia Paulista de História reúna essas condições favoráveis para continuar a exercer o impostergável papel inovador e transformador do estudo da história. Daniel Bell (1960) apregoou o fim da ideologia. Michel Drancourt (1984) profetizou o fim do trabalho. Bernard Boubli (1985) sustentou o fim do Direito do Trabalho. Jeremy Rifkin (1994) proclamou o fim dos empregos. Kenich Ohmae (1999) declarou o fim do Estado Nação. Francis Fukuyama (1989) anunciou o fim da história. Nenhuma dessas profecias se consumou, mas aqui o que nos diz mais respeito está ligado ao debate sobre a obra de Francis Fukuyama. Durante o verão de 1989, uma revista de circulação restrita especializada em política externa norte-americana, a National Interest, publicou um artigo que veio a provocar um dos maiores debates intelectuais ocorridos no pós-guerra, e que trazia por título ‘Será o Fim da História?’. Nele, o autor colocava o problema de maneira extremamente literal. O ponto principal de sua argumentação ousou ir ainda mais longe: ‘Talvez não estejamos apenas presenciando o fim da guerra fria, ou a conclusão de um período específico da história do pós-guerra, mas o término da história em si mesma, ou seja, a síntese final da evolução ideológica da humanidade e o fenômeno da universalização da democracia liberal ocidental como a forma última de governo para a humanidade’. A tese de Fukuyama provocou uma onda de críticas da parte de especialistas e pensadores, tanto nos Estados Unidos quanto no exterior. A revista Time intitulou um artigo que criticava o fenômeno Fukuyama como ‘O início do absurdo’. Fukuyama, em resposta, assim se pronunciou: ‘Depois de ver os litros de tinta derramados em torno de ‘Será o Fim da História?’, cheguei à conclusão de que consegui na realidade provocar um consenso universal extraordinário, não a respeito do estado atual do liberalismo, mas sobre o fato de que eu estava errado e que de fato a história não acabou”. Em conclusão A História não está órfã, permanece viva como sempre, pois ela não pertence aos historiadores e tampouco aos políticos, mas trata-se de um permanente e valioso bem de todos nós. Muito obrigado”.