A presença da inteligência artificial no debate público é elemento concreto das disputas políticas contemporâneas. No ambiente eleitoral, assume contornos particularmente sensíveis. Ferramentas capazes de gerar textos, imagens, áudios e vídeos sintéticos hiper-realistas ampliam a capilaridade e o alcance das campanhas, mas criam riscos inéditos de manipulação informacional e distorção do debate democrático.

Nesse contexto, as eleições brasileiras de 2026 representam um marco institucional relevante ao estabelecer regras específicas para o uso de inteligência artificial nas campanhas eleitorais. O Tribunal Superior Eleitoral concluiu, recentemente, a aprovação das resoluções que disciplinarão o processo eleitoral, incluindo diretrizes atualizadas para o uso de tecnologias digitais. Ao todo, foram aprovadas 14 resoluções que estruturam o funcionamento das eleições de 2026, cujo primeiro turno está previsto para 4 de outubro.

E a discussão sobre inteligência artificial não foi periférica. Entre as instruções aprovadas, destaca-se a atualização da Resolução TSE no 23.610/2019, que disciplina a propaganda eleitoral e passou a incorporar regras específicas para o uso dessa tecnologia. A nova redação estabelece, de forma clara, a proibição de divulgação ou compartilhamento de conteúdos gerados ou alterados por inteligência artificial em desacordo com as regras de rotulagem previstas pela Justiça Eleitoral.

A exigência de transparência no uso da tecnologia é um dos pontos principais. Conteúdos produzidos ou manipulados por IA deverão ser identificados de forma clara para o eleitorado, permitindo distinguir material criado por sistemas automatizados daqueles produzidos diretamente por pessoas. A lógica da regra é preservar a autonomia informacional em um ambiente digital no qual a capacidade técnica de gerar conteúdos sintéticos cresce em ritmo acelerado.

Outro ponto relevante da regulamentação é a restrição temporal à circulação de conteúdos gerados por inteligência artificial em momentos críticos da disputa eleitoral. A Justiça Eleitoral determinou que esse tipo de material não poderá circular nas 72 horas que antecedem a votação nem nas 24 horas posteriores ao pleito, criando uma janela de proteção informacional de 96 horas em torno do momento decisório do eleitorado. A medida busca reduzir o impacto de campanhas de desinformação em um período em que a capacidade de resposta institucional e social tende a ser mais limitada.

A regulamentação também amplia a responsabilização de candidatos, partidos e provedores de tecnologia. O entendimento da Justiça Eleitoral é que a integridade informacional das eleições depende de um ecossistema de responsabilidade compartilhada. Plataformas digitais passam a ter deveres mais claros de monitoramento e remoção de conteúdos irregulares, enquanto campanhas e candidatos assumem responsabilidades adicionais sobre o material divulgado em seus canais de comunicação.

Essa preocupação institucional dialoga com um fenômeno global. O tema ganhou relevância em 2024, considerado o maior ano eleitoral da história recente, envolvendo quase 80 países e pouco mais da metade da população mundial. Organismos internacionais alertam, desde então, que a tecnologia pode influenciar eleições ao facilitar a produção de deepfakes, automatizar campanhas de propaganda digital e direcionar mensagens políticas com elevado grau de precisão.

Em um ambiente digital marcado pela velocidade da circulação de informações, a distinção entre conteúdo autêntico e material manipulado torna-se cada vez mais complexa. Devemos ter em vista que as tecnologias de síntese de voz e imagem permitem criar vídeos altamente convincentes que simulam declarações ou comportamentos de candidatos, alterando a percepção pública sobre fatos políticos.

O desafio, entretanto, não se limita à manipulação audiovisual. A interação entre humanos e sistemas de inteligência artificial generativa altera profundamente o ambiente informacional em que se forma a opinião pública. Sistemas automatizados podem acelerar a produção de mensagens políticas, amplificar conteúdos e direcionar narrativas para públicos específicos.

O resultado é a formação de um espaço público híbrido, no qual conteúdos produzidos por máquinas e por pessoas passam a coexistir de maneira, muitas vezes, indistinguível. Esse ambiente amplia as possibilidades de comunicação política e de participação cidadã, reforçando a liberdade de expressão, um dos pilares da democracia. Ao mesmo tempo, a sofisticação de sistemas generativos impõe novos desafios para a autenticidade. Transparência e responsabilidade tornam-se essenciais para que a liberdade de expressão continue a florescer em um ambiente informacional confiável.

Pesquisas recentes indicam que a inteligência artificial começa a impactar não apenas o universo digital, mas também a economia real, a organização social e até o equilíbrio global de poder. A expansão dessas tecnologias evidencia que sua governança deixou de ser um tema exclusivamente técnico para se tornar uma questão estratégica para instituições democráticas.

É justamente nesse ponto que o papel da advocacia ganha centralidade. Em um ambiente eleitoral permeado por inteligência artificial, operadores do Direito passam a ocupar posição estratégica na interpretação das novas regras, na construção de parâmetros de conformidade tecnológica e na proteção da integridade do processo eleitoral. A atuação jurídica torna-se fundamental tanto na assessoria a campanhas e partidos quanto na defesa institucional contra práticas de manipulação informacional.

Advogadas e advogados assumem papel relevante na construção de mecanismos de responsabilidade e governança digital. Questões como identificação de conteúdos sintéticos, preservação de provas digitais, responsabilização de plataformas e tutela judicial de urgência passam a integrar o cotidiano do Direito. Mais do que reagir a conflitos instaurados, o campo jurídico passa a participar ativamente da construção de parâmetros de uso legítimo e ético da inteligência artificial no espaço público.

Nesse cenário, a AASP se posiciona como instituição de apoio à advocacia. A entidade tem como agenda prioritária a capacitação técnica de seus associados em temas relacionados à inteligência artificial, à prova digital e à governança tecnológica, além de fomentar o debate qualificado e a produção de conhecimento aplicado sobre os impactos da IA no sistema de Justiça. Trata-se de uma atuação orientada à antecipação de riscos e à construção de soluções jurídicas consistentes, alinhadas às novas demandas do ambiente digital.

Mais do que acompanhar as transformações em curso, a AASP busca exercer um papel ativo na articulação entre advocacia, instituições públicas e setor tecnológico, contribuindo para a consolidação de parâmetros regulatórios equilibrados e para o fortalecimento da segurança jurídica. Esse posicionamento institucional reforça o compromisso da entidade com a defesa do Estado de Direito e com a preservação da integridade dos processos democráticos, em um contexto de crescente complexidade tecnológica e social.

Conteúdo relacionado:

A compreensão das dinâmicas tecnológicas, das estruturas algorítmicas e da circulação de informações digitais torna-se cada vez mais necessária para a atuação profissional. Em um cenário no qual sistemas automatizados influenciam a produção e a difusão de informações políticas, o conhecimento jurídico precisa dialogar com competências tecnológicas e com novas formas de governança institucional.

As eleições de 2026 representam, portanto, um ponto de inflexão. Elas marcam o momento em que a inteligência artificial deixa de ser apenas uma ferramenta auxiliar da comunicação política para se tornar elemento central da governança eleitoral. A resposta regulatória brasileira busca equilibrar inovação tecnológica e proteção democrática, reconhecendo que a tecnologia pode ampliar as formas de participação política, mas também gerar riscos significativos quando utilizada sem transparência e responsabilidade.

No centro desse debate está um desafio fundamental: preservar a confiança pública no processo eleitoral em uma era marcada pela automação informacional. Garantir que o eleitor tenha acesso a informações autênticas, identificar conteúdos manipulados e responsabilizar atores digitais torna-se parte essencial da defesa da democracia. Nesse novo ambiente, a articulação entre instituições eleitorais, plataformas tecnológicas e advocacia especializada será decisiva para construir um equilíbrio sustentável entre inovação tecnológica e integridade democrática.

Portanto, o desafio central é garantir integridade informacional no processo eleitoral diante do uso crescente da inteligência artificial. Isso exige regras claras, aplicação efetiva e atuação técnica da advocacia na prevenção e na repressão de irregularidades. A AASP atuará de forma vigilante na promoção da segurança jurídica e da confiança no processo democrático, assegurando que a inovação tecnológica seja utilizada com responsabilidade.