(…) a democracia pressupõe o respeito pela cidadania e o controle e a responsabilidade do poder, requer o direito dos governados a uma informação exata e honesta. A palavra dos governantes que mascara e esconde põe em questão o chão da vida política democrática(…) levando à apatia, ao cinismo, à indiferença que minam a confiança exigida pela democracia[18].
Porém, o que deveria ser pressuposto pela prática, parece de fato utopia. Como afirma Arendt em sua obra “Entre o Passado e o Futuro”, referindo-se à dificuldade em incluir a sinceridade entre as virtudes políticas:Sempre se consideraram as mentiras como ferramentas necessárias e justificáveis ao ofício não só do político ou do demagogo, como também do estadista. Por que é assim?[19]
A partir dessa questão, a autora explica que efetivamente a verdade filosófica pode distanciar-se na prática da verdade factual, já que esta está sujeita à interpretação. Por outro lado, exemplifica ainda a partir do mito da caverna de Platão, que o ser humano prefere a ilusão à verdade. Porém, ainda que a política possa depender de fatos e de suas interpretações, a autora rompe com o relativismo que poderia acarretar a manipulação justificada destes, o que a seu ver seria a anulação dos próprios fatos tais quais. Para Arendt, manusear a verdade, como mostra a experiência histórica totalitarista, por exemplo, através de sua ideologização é mentir descaradamente. O político, por partidário, pode ver um aspecto da mesma verdade, visto de forma diferente, por outro, ou tratar de forma distinta aspectos opináveis sobre uma mesma realidade. O que não seria “fair-play” é enganar; tergiversar a verdade conscientemente e tal de forma apregoá-la, que o próprio manipulador já não a distingue. É o que infelizmente temos vivenciado continuamente ao longo da crise ético-política que vem assolando nosso país, onde os protagonistas parecem estar naufragados em uma “convicta” mentira existencial, com ares teatrais ou mesmo esquizofrênicos. Porém, como afirma Arendt, a persuasão no jogo político pode destruir a verdade, mas não substituí-la[20]. Nesse sentido, voltamos à teoria da ação, onde a veracidade deveria ser promovida, vivida e exigida em todos os polos da relação como base do justo político. 2. O papel da mídia “Quem controla o passado dirige o futuro. Quem dirige o futuro, conquista o passado” (GEORGE ORWELL). Para demonstrarmos o papel da mídia, o chamado quarto poder, precisamos de um questionamento: quem cria e dissemina as crenças que dominam a população brasileira hoje? A casta dos jornalistas. Eles criam os valores, as crenças, os critérios de julgamento, a diferença entre o bem e o mal, o conveniente e o inconveniente. A mídia tem o poder de absolver, condenar, aplaudir, vaiar, etc., induzindo as massas. A imprensa realiza um papel fundamental no jogo político. Utilizando um exemplo da recente história brasileira: sem a Rede Globo, o ex-presidente Fernando Collor de Mello teria uma dificuldade muito maior de ser eleito para o principal cargo do Poder Executivo.[21] Para Hannah Arendt, “a raison d’être da política é a liberdade, e seu domínio é a ação”.[22] Para ser livre e exercer uma ação, no mundo moderno, o ser humano precisa de um mínimo de informação, para poder orientar da melhor forma possível a sua atitude. Sócrates acreditava que se a verdade estivesse do seu lado, a opinião dos homens não valia nada. Passados aproximadamente 2400 anos, a conjuntura modificou deveras. A mídia impede que a verdade no jogo político realmente emerja, criando um teatro jornalístico, no qual o telespectador/leitor é coberto por um véu de ignorância. Vejamos quais são as consequências imediatas de uma mídia parcial. Eric Voegelin, contemporâneo de Hannah Arendt, afirmava que as condições para a democracia já não existiam. De um lado, o governo se transfigurou em administração. A máquina estatal cresceu de tal forma e em tal velocidade, que é absolutamente impossível que o cidadão comum consiga apreender o seu funcionamento. Do outro, as novas classes que surgiram (proletários, funcionários públicos, pequenos burgueses, estudantes universitários, etc.) passaram a abrir mão da liberdade individual e acreditar no planejamento coletivo por parte do Estado; uma espécie do “homem-massa”, concebido por Ortega Y Gasset. Diante disso, a liberdade de opinião se tornou a capacidade de reproduzir os jargões narrados pela mídia. Frases soltas, fora de contexto e interpretadas da pior maneira possível, via de regra, são estampadas nas primeiras páginas dos jornais com manchetes em letras garrafais. Caso seja comprovada a má-fé do veículo de comunicação que noticiou o ocorrido, dificilmente se encontrará um pedido de desculpas, e, caso ocorra, jamais será tão impactante quanto à mentira antes anunciada. 3. O fenômeno da desinformação “Uma mentira repetida mil vezes torna-se uma verdade” (JOSEPH GOOEBBELS). Importante salientar aqui a diferença existente entre falsa informação e desinformação. A mídia moderna tem operado mais a partir do segundo molde do que do primeiro, provocando um estrago bem maior. Falsa informação, por exemplo, é um jornal de Moscou publicar uma notícia contra o governo americano. A falsa informação é facilmente desmentida, porque vem de um veículo que é notoriamente hostil. [23] A desinformação ocorre quando uma falsa mentira é proferida por um veículo de comunicação que é da confiança do consumidor. Por exemplo, a história do Papa de Hitler apareceu pela primeira vez no dia 7 de junho de 1945 na Rádio Moscou. Ninguém deu muita importância, considerando que o Papa Pio XII foi um dos poucos governantes que protegeu os judeus durante a guerra. Organizações judaicas avançaram para defender o Papa; Albert Einstein fez declarações favoráveis ao Papa; o rabino-chefe de Roma, Israel Zolli, converteu-se ao catolicismo e adotou o nome de Eugenio em homenagem ao Papa e a mentira foi totalmente desmascarada. Passados 18 anos, a mesma calúnia apareceu na peça “O Vigário”, de autoria de Rolf Hochuuth e, mais recentemente, no livro “O Papa de Hitler”, do John Cornwell. Ou seja, quando a informação foi lançada por Moscou, o Ocidente logicamente identificou que a URSS era inimiga da Igreja Católica e se posicionou de forma contrária à mentira. No entanto, quando a fonte se torna ocidental, os cidadãos tendem a confiar na narrativa. A política brasileira tem sido rodeada por mentiras e falsas informações, divulgadas pela imprensa e aplaudidas por determinados grupos de interesses. E basta uma opinião divergente para se ter a reputação assassinada e a imagem exposta em praça pública, principalmente se a conduta for íntegra e coerente. As frases de Celso Lafer a partir da ótica arendtiana a respeito da derrogação da verdade pela aceitação da mentira parecem continuar sendo aplicáveis ao atual contexto brasileiro, ainda que tão sedento de justiça: “a proliferação generalizada da mentira, do segredo, da dissimulação – presentes nas incontáveis ‘versões’ governamentais sobre tantos fatos despropositados (…) instiga uma reflexão sobre a mentira na prática política de nosso país[24]”. Terminamos também com as palavras finais deste caro professor no artigo mencionado: “Deixo ao leitor a tarefa de qualificar o enquadramento de tantos membros do atual governo e de seus próximos[25]”, não só para julgá-los, mas para buscar soluções para passar a limpo até o fim nosso já tão desrespeitado Brasil. Referências bibliográficas_____________________________ ARENDT, Hannah. As origens do totalitarismo. São Paulo: Ed. Companhia das Letras, 1988. ________________ Entre o passado e o futuro. São Paulo: Editora Perspectiva, 2011. ________________ The promisses of politics: edited and with an introduction by Jerome Kohn. New York: Soloken Books, 2005. ARISTOTLE. Politics. New York: Walter J. Black. 1943 CONTI, Mário Sérgio. Notícias do Planalto: a imprensa e Fernando Collor. São Paulo: Ed. Companhia das Letras, 1999. HART, H. L. Ensaios sobre teoria do direito e filosofia. São Paulo: Elsevier, 2010. LAFER, Celso. Sobre a mentira. Publicado no jornal O Estado de São Paulo, em 20/07/2008. PACEPA. Ion Mihai. Desinformação. São Paulo: Vide Editorial, 2015. SARTORI. Giovani. A teoria da democracia revisitada. São Paulo: Ed. Ática. 1994. TOCQUEVILLE. Alexis de. Democracy in America and two essays on America. London: Penguin Classics. 2003. WOLIN, Sheldon. Hannah Arendt: democracy and the political. Salgamundi: n. 60. Saratoga: Skidmore College, 1983. Notas_____________________________ 1 Giovanni Sartori, A Teoria da Democracia Revisitada, São Paulo, Ed. Ática, 1994, p. 9 et seq. 2 “Begriffshimmel x Begriffsjurisprudenz”, em HART, H.L. Ensaios sobre Teoria do Direito e Filosofia, São Paulo, Elsevier, 2010, p. 304 et seq. 3 HART, 2010, p. 311. 4 Ibidem. 5 ARISTOTLE. Politics. New York: Walter J. Black, 1943. 6 Ibidem, livro IV, capítulo IV. 7 Ibidem. 8Ibidem. 9 Tocqueville, Alexis de. Democracy in America and Two Essays on America. London: Penguin Classics, 2003. 10 WOLIN, Sheldon. Hannah Arendt: Democracy and the Political. Salgamundi, n. 60, p. 3-19. Saratoga: Skidmore College, 1983. 11 ARENDT, Hannah. The promisses of Politics. Edited and with an introduction by Jerome Kohn. New York: Schoken Books, 2005. 12 Ibidem. 13 LAFER, Celso. Sobre a Mentira. Publicado no jornal “O Estado de São Paulo” em 20/07/2008. 14 Ibidem. 15 Ibidem. 16 ARENDT, Hannah. As origens do Totalitarismo. São Paulo. Ed. Companhia das Letras, 1988. 17 Aula UFRGS, 2013. 18 LAFER, 2008. 19 ARENDT, Hannah. Entre o passado e o futuro. São Paulo: Editora Perspectiva, 2001, p. 296. 20 Ibidem, p. 320. 21 “Roberto Marinho aderiu à candidatura de Collor porque era a que tinha mais condições de derrotar Lula e Brizola”. Ver Notícias do Planalto, Mario Sergio Conti. 22 ARENDT, 2001, p. 192 23 Ver Ion Mihai Pacepa; Desinformação, São Paulo, Vide Editorial, 2015. 24 LAFER, 2008. 25 LAFER, 2008.